O BREVE ADEUS DE ABRAVANEL

Em dezembro de 1975, Silvio conquista a concessão de seu primeiro canal de televisão, colocando no ar em 14 de maio de 1976 a TV Studios Silvio Santos. Foto: Francisco Rosa/SBT
Em dezembro de 1975, Silvio conquista a concessão de seu primeiro canal de televisão, colocando no ar em 14 de maio de 1976 a TV Studios Silvio Santos. Foto: Francisco Rosa/SBT

A vida do apresentador de televisão Silvio Santos foi toda um espetáculo. O pai nasceu na Grécia, a mãe na Turquia, e ele no Rio de Janeiro. Certa vez na infância, com sintomas de gripe, foi impedido pela mãe de ir ao cinema. Chateado, insistiu. A mãe disse não, e pronto. Durante a sessão, o cinema pegou fogo, deixando muitos feridos. Camelô de rua, ele já era um espetáculo, vendendo capas para título de eleitor, dizendo que cada unidade era a última do estoque. Em um concurso de rádio, tirou o primeiro lugar como locutor. Mas preferiu voltar ao comércio ambulante em que faturava mais. No exército, entrou para Escola de Paraquedistas, algo espetacular.

Saiu do exército, voltou ao rádio e ao comércio, vendendo relógios, joias, colares e sapatos sob medida em escritórios e repartições públicas. A rua, o circo, o cinema, o rádio, a televisão e o palco espetacular do povão Brasil afora foram seu mundo, por décadas a fio, emblema de várias gerações, cruzando a linha do século e do milênio, em total atividade, até bem dizer o dia de sua morte. Da velha tevê de tubo em preto e branco ao sofisticado sinal eletrônico, o fio condutor de sua vida foi o sucesso. Abravanel era em si mesmo um espetáculo.

Silvio Santos foi enterrado no domingo, 18 de agosto, sem glamour e sem público. Majestade da televisão, era de se esperar que seu enterro fosse também um espetáculo, como sempre é o enterro de celebridades. Que seu corpo, embalsamado, ficasse exposto à visitação de uma fila imensa de fãs por, pelo menos, uma semana; que autoridades da imprensa, das artes, dos negócios, da política, nacional e internacional, prestigiassem as cerimônias fúnebres; que em peregrinação, o caixão desfilasse por ruas e avenidas, até à última morada, onde uma multidão se despedisse de seu ídolo, enterrado até quem sabe com honras de estado. E que, por fim, a mídia explorasse até o esgotamento, detalhe por detalhe, o funeral.

Mas não. O último adeus de Abravanel foi de uma brevidade e discrição fora do comum. Morreu num dia, foi enterrado no dia seguinte, conforme havia pedido e segundo as regras do judaísmo. E só não desceu ao túmulo na mesma tarde, porque sábado é dia de descanso para os judeus, e nem enterro acontece, ficando para o domingo. A cerimônia foi restrita a pouquíssimas pessoas, e Silvio Santos, a exemplo do Lombardi dos seus bastidores, tornou-se invisível para sempre.

O ritual judaico para o derradeiro adeus, desde a morte ao sepultamento, deve ser uma regra digna de aplausos. Proibir a exposição do morto à curiosidade pública, evitar o culto ao corpo inanimado, restringir as exéquias à família e íntimos e providenciar em poucas horas o enterro é algo, digamos, louvável. Tumulto, badalação, tietagem e correria em torno do defunto são costumes, digamos, deploráveis e primitivos da espécie Sapiens. Pois nada mais grotesco há do que o finado, com cara de palerma, esticado no esquife, sendo cortejado por uma legião de curiosos sem mais compromisso algum do que simplesmente sair badalando que viram o defunto.

Sem falar também, que os lambe-botas da última hora representam a pior escória dos aduladores. O bajulador de defunto, para fazer média com os parentes vivos, não tem comparativo na degradação do caráter humano. São as falsas línguas que comparecem nos velórios, para as quais, é raro o morto que não tenha sido a pessoa melhor deste mundo.

Silvio Santos, dentre muitas conquistas em vida, teve no fim a glória de embarcar no baú da eternidade da forma mais prosaica, saindo à francesa do espetáculo do mundo, de mansinho, pela porta dos fundos, para um território onde somente o vento e as almas, em clima de suspense, deviam confabular dizendo: Silvio Santos vem aí.

Embora, em nome da verdade, tenha-se a irresistível sensação de querer lamentar, contemplando os 93 anos do incomparável animador, que, francamente, foi tão longa vida, para tão curto adeus.

Pedro Paulo Paulino
Matéria assinada por Pedro Paulo Paulino Colunista · Canindé.Blog

Atuante tanto na literatura de cordel quanto na poesia erudita, com diversas conquistas em prêmios literários de âmbito nacional. Além de seu trabalho como escritor, ele também é redator e diagramador de jornais, revistas e livros, atuando dentro e fora de Canindé. Como radialista, Pedro Paulo apresenta um programa aos domingos, focado em resgatar sucessos da Velha Guarda.

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